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A Lenda da Erva-das-Sete-Sombras

11/12/2025

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Fotografia
Planta: Erva-das-sete-sombras (nome popular dado a uma espécie de artemísia ou planta aromática silvestre da serra)
Região: Serra de Sintra
Ligação: Bruxaria, feitiçaria antiga, proteção e metamorfose

Dizem os velhos da serra que existe uma planta que só nasce em lugares onde sete sombras se cruzam.
Não são sombras de árvores nem de pedras — são sombras de seres que viveram antes de nós, espíritos antigos da montanha, que protegem e assustam conforme a intenção de quem os procura.
Por isso lhe chamam erva-das-sete-sombras.
Cresce em tufos pequenos, de folhas cinzentas e cheiro intenso. À primeira vista parece vulgar, como tantas ervas aromáticas da serra, mas quem a conhece sabe: nunca se deve arrancá-la sem pedir licença.
Quem o faz, conta a lenda, acaba por ouvir vozes atrás de si até ao fim dos dias.
Antigamente, quando a Lua cheia se escondia detrás da névoa de Sintra, as bruxas da serra reuniam-se perto de antigas pedras de culto, algures entre a Peninha e a Azóia. Vinham silenciosas, com mantos escuros, trazendo consigo ramos da erva-das-sete-sombras.
Com ela preparavam infusões para ver o que os olhos humanos não alcançam:
— caminhos escondidos,
— intenções alheias,
— presságios,
— e até espíritos que caminhavam entre este mundo e o outro.
Mas o seu uso mais temido era outro.
Contavam que a erva-das-sete-sombras permitia tornar alguém invisível às vistas humanas, ainda que não aos espíritos.
Quem a esfregasse na fronte, misturada com resina de pinheiro bravo, podia atravessar aldeias sem ser visto. Mas o preço era alto:
uma parte da própria sombra ficava para sempre presa à serra.
Certa vez, uma rapariga de Colares, curiosa das artes antigas, quis aprender o segredo. Uma velha curandeira levou-a à mata e mostrou-lhe a erva.
— “Cresce onde o sol nunca vence”, disse.
E apontou para um lugar onde sete sombras, vindas de pedras, troncos e saliências, se cruzavam como dedos escuros a tocar o chão.
A rapariga, impaciente, colheu a planta sem pedir permissão.
A velha empalideceu.
Naquela noite, quando regressava a casa pela estrada da Pena, a lua cheia surgiu por trás das nuvens — e a rapariga viu sete sombras caminhar ao seu lado.
Sete.
Não seis.
Não oito.
Sete.
Sombras finas, alongadas, sem rosto.
Seguiam-na em silêncio, imitando os passos dela, como se a tivessem adotado.
A rapariga correu. Correu até casa e fechou portas e janelas. Mas as sombras, dizem, ficaram com ela. Nunca a tocaram, nunca lhe fizeram mal, mas iam onde ela ia. Passaram noites junto à sua cama, sentadas na parede, à espera.
E assim viveu muitos anos, acompanhada por aquelas presenças invisíveis, que só ela e alguns sensíveis da serra conseguiam ver.
Alguns acreditavam que foram guardiões enviados para protegê-la; outros diziam que eram sombras reclamando o que lhes tinha sido tomado sem permissão.
Ainda hoje, os habitantes antigos avisam:
“Na Serra de Sintra, há ervas que curam, ervas que encantam e ervas que chamam quem está no escuro.”
A erva-das-sete-sombras é uma delas.
Arranca-a sem respeito… e talvez tragas alguém contigo para casa.

Fontes e referências culturais
Embora a planta “erva-das-sete-sombras” seja um nome popular variável, a lenda apoia-se em:
  • Manuel J. Gandra – Sintra Secreta (registos sobre plantas mágicas da serra)
  • Recolhas orais da região da Azóia, Colares e Peninha
  • Tradições descritas por etnógrafos sintrenses (Associação de Defesa do Património de Sintra)
  • Conexões com práticas reais de feitiçaria do séc. XVIII–XIX na região

Que planta é a erva das sete sombras?

Artemisia vulgaris — a opção mais provável
A Artemisia vulgaris é, segundo a tradição popular e os registos etnográficos, a planta mais associada à bruxaria e aos rituais mágicos em Portugal.
Porquê?
  • Era amplamente utilizada por curandeiras e benzedeiras da Estremadura, incluindo a região de Sintra.
  • Considerada uma planta purificadora e protetora, usada para afastar influências negativas.
  • Tinha fama de ser mágica desde tempos pré-cristãos, ligada a cultos antigos da natureza.
  • Cresce naturalmente em locais sombrios, pedregosos e húmidos, como as encostas da Serra de Sintra.
  • Surge com frequência em registos etnográficos relacionados com práticas espirituais e medicinais da região.
Fontes:– José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa (referências à artemísia e usos mágicos)
– Michel Giacometti, Arquivo Sonoro (registos de cura e proteção)
– Manuel J. Gandra, Sintra Secreta (plantas mágicas da Serra de Sintra)

Ruta graveolens — a arruda
Em várias aldeias da zona de Sintra, a arruda era conhecida como “erva das sombras”.
Porquê?
  • Era utilizada para afastar maus espíritos e energias negativas.
  • Tinha um papel importante em práticas de magia negra e branca, dependendo da intenção.
  • As bruxas da região da Peninha recorriam à arruda nas defumações e rituais de proteção.
  • Por ser extremamente aromática, acreditava-se que funcionava como planta de alerta espiritual, indicando presenças invisíveis.
Fontes:– Jorge Dias, O Mundo das Feiticeiras
– Recolhas orais da Azóia e Colares

Mentha suaveolens ou Mentha spicata — hortelã-da-serra
​
Alguns informantes referiam-se às hortelãs que crescem em zonas húmidas e sombrias da serra como “sete sombras”.
Porquê?
  • Surgem frequentemente em lugares onde “sete sombras se cruzam” — expressão simbólica usada pelos pastores e curandeiras.
  • Utilizadas em poções e infusões para visão interior, clarividência e aumento da intuição.
  • A hortelã estava ligada às mouras encantadas; dizia-se que o seu aroma suave anunciava a presença delas.
Fontes:– Tradição oral das zonas de Galamares e Colares
– Estudos de etnobotânica sintrense (Museu de Sintra)
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