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Dizem os antigos que a nogueira é uma árvore poderosa, mas perigosa. No Norte e nas Beiras, ninguém dorme ao seu pé, nem deixa o gado descansar debaixo da sombra — sobretudo nas noites de luar.
A lenda conta que, quando o relógio marca a meia-noite, as bruxas juntam-se debaixo das grandes nogueiras, em clareiras escondidas, para fazer os seus trabalhos. Vêm dos montes e vales, vestidas de negro, com ervas presas no cabelo e ramos secos de arruda, alfazema e beladona nas mãos. Mas a árvore não é escolhida por acaso. A nogueira, dizem, é uma árvore com dois mundos: as raízes fincam-se nas profundezas da terra, onde vivem espíritos antigos; a copa ergue-se ao céu, onde voam as almas livres. Por isso é o portal perfeito. Numa aldeia de Trás-os-Montes, os mais velhos juravam que, em noites de São João, quando o fogo purifica e a terra respira, as bruxas dançavam à roda da nogueira mais velha do lugar — uma árvore tão larga que três homens não conseguiam abraçar o tronco. O chão ficava coberto de sombras em movimento, e quem tivesse coragem de espreitar escondido no mato, via luzinhas a girar — como brasas soltas. Eram as “alminhas de lume”, que as bruxas chamavam com cânticos antigos, numa língua que já ninguém sabe. Conta-se que um rapaz novo quis provar que era valente. Esperou pela meia-noite, levou uma pedra de sal no bolso — porque o sal protege — e escondeu-se atrás de uns fetos. Quando a lua ficou no alto, o vento calou-se, e a nogueira começou a tremer, embora não houvesse brisa. Então elas apareceram. Não tinham rosto. Só sombras longas, como se a lua tivesse moldado figuras a partir das folhas. Dançavam em roda, tocando o chão com os pés nus, e o tronco da árvore parecia pulsar, como se tivesse coração. O rapaz ficou petrificado, sem saber se aquilo era sonho ou verdade. Quando tentou levantar-se, uma das sombras virou-se devagar para o lugar onde ele estava escondido — e o rapaz sentiu o sangue gelar. Foi então que se lembrou do sal. Deitou a mão ao bolso, atirou três grãos para o chão — “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” — como a avó lhe ensinara. No mesmo instante, o círculo desfez-se. As sombras desapareceram, o vento voltou a soprar, e a nogueira ficou quieta, como se nada tivesse acontecido. Na manhã seguinte, os aldeões encontraram o rapaz desmaiado junto ao tronco, com o sal espalhado no chão. Quando acordou, nunca mais falou do que viu. Desde esse dia, na aldeia ninguém passou a dormir à sombra da nogueira. E até hoje, quem conhece as histórias antigas diz: debaixo da nogueira, nem o homem nem o gado devem dormir, porque a árvore guarda mistérios, e à meia-noite pode acordar. Por isso há quem diga que a nogueira é árvore de poder — boa para proteger, mas perigosa para desafiar. E quando passam por uma nogueira muito antiga, ainda se benzem baixinho, porque há árvores que lembram aquilo que a terra não esquece. Referências culturais e etnográficas Esta lenda existe em várias versões regionais:
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Dezembro 2025
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