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A Lenda da Nogueira das Bruxas

11/12/2025

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Fotografia
Dizem os antigos que a nogueira é uma árvore poderosa, mas perigosa. No Norte e nas Beiras, ninguém dorme ao seu pé, nem deixa o gado descansar debaixo da sombra — sobretudo nas noites de luar.
A lenda conta que, quando o relógio marca a meia-noite, as bruxas juntam-se debaixo das grandes nogueiras, em clareiras escondidas, para fazer os seus trabalhos. Vêm dos montes e vales, vestidas de negro, com ervas presas no cabelo e ramos secos de arruda, alfazema e beladona nas mãos.

Mas a árvore não é escolhida por acaso.
A nogueira, dizem, é uma árvore com dois mundos:
as raízes fincam-se nas profundezas da terra, onde vivem espíritos antigos; a copa ergue-se ao céu, onde voam as almas livres. Por isso é o portal perfeito.
​
Numa aldeia de Trás-os-Montes, os mais velhos juravam que, em noites de São João, quando o fogo purifica e a terra respira, as bruxas dançavam à roda da nogueira mais velha do lugar — uma árvore tão larga que três homens não conseguiam abraçar o tronco.
O chão ficava coberto de sombras em movimento, e quem tivesse coragem de espreitar escondido no mato, via luzinhas a girar — como brasas soltas. Eram as “alminhas de lume”, que as bruxas chamavam com cânticos antigos, numa língua que já ninguém sabe.
Conta-se que um rapaz novo quis provar que era valente. Esperou pela meia-noite, levou uma pedra de sal no bolso — porque o sal protege — e escondeu-se atrás de uns fetos. Quando a lua ficou no alto, o vento calou-se, e a nogueira começou a tremer, embora não houvesse brisa. Então elas apareceram.
Não tinham rosto. Só sombras longas, como se a lua tivesse moldado figuras a partir das folhas. Dançavam em roda, tocando o chão com os pés nus, e o tronco da árvore parecia pulsar, como se tivesse coração.
O rapaz ficou petrificado, sem saber se aquilo era sonho ou verdade. Quando tentou levantar-se, uma das sombras virou-se devagar para o lugar onde ele estava escondido — e o rapaz sentiu o sangue gelar.
Foi então que se lembrou do sal. Deitou a mão ao bolso, atirou três grãos para o chão — “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” — como a avó lhe ensinara. No mesmo instante, o círculo desfez-se. As sombras desapareceram, o vento voltou a soprar, e a nogueira ficou quieta, como se nada tivesse acontecido.
Na manhã seguinte, os aldeões encontraram o rapaz desmaiado junto ao tronco, com o sal espalhado no chão. Quando acordou, nunca mais falou do que viu.
Desde esse dia, na aldeia ninguém passou a dormir à sombra da nogueira. E até hoje, quem conhece as histórias antigas diz:
debaixo da nogueira, nem o homem nem o gado devem dormir, porque a árvore guarda mistérios, e à meia-noite pode acordar.
Por isso há quem diga que a nogueira é árvore de poder — boa para proteger, mas perigosa para desafiar.
E quando passam por uma nogueira muito antiga, ainda se benzem baixinho, porque há árvores que lembram aquilo que a terra não esquece.

Referências culturais e etnográficas
​Esta lenda existe em várias versões regionais:
  • Jorge Dias – O Mundo das Feiticeiras
    (estudos sobre crenças rurais e ligação das bruxas às árvores)
  • José Leite de Vasconcelos – Etnografia Portuguesa, Vol. III
    (relação entre nogueira e superstição popular)
  • Tradição oral de Trás-os-Montes e Beiras
    recolhida em aldeias como Vinhais, Bragança, Almeida e Gouveia.
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