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Planta: Erva-das-sete-sombras (nome popular dado a uma espécie de artemísia ou planta aromática silvestre da serra) Região: Serra de Sintra Ligação: Bruxaria, feitiçaria antiga, proteção e metamorfose Dizem os velhos da serra que existe uma planta que só nasce em lugares onde sete sombras se cruzam. Não são sombras de árvores nem de pedras — são sombras de seres que viveram antes de nós, espíritos antigos da montanha, que protegem e assustam conforme a intenção de quem os procura. Por isso lhe chamam erva-das-sete-sombras. Cresce em tufos pequenos, de folhas cinzentas e cheiro intenso. À primeira vista parece vulgar, como tantas ervas aromáticas da serra, mas quem a conhece sabe: nunca se deve arrancá-la sem pedir licença. Quem o faz, conta a lenda, acaba por ouvir vozes atrás de si até ao fim dos dias. Antigamente, quando a Lua cheia se escondia detrás da névoa de Sintra, as bruxas da serra reuniam-se perto de antigas pedras de culto, algures entre a Peninha e a Azóia. Vinham silenciosas, com mantos escuros, trazendo consigo ramos da erva-das-sete-sombras. Com ela preparavam infusões para ver o que os olhos humanos não alcançam: — caminhos escondidos, — intenções alheias, — presságios, — e até espíritos que caminhavam entre este mundo e o outro. Mas o seu uso mais temido era outro. Contavam que a erva-das-sete-sombras permitia tornar alguém invisível às vistas humanas, ainda que não aos espíritos. Quem a esfregasse na fronte, misturada com resina de pinheiro bravo, podia atravessar aldeias sem ser visto. Mas o preço era alto: uma parte da própria sombra ficava para sempre presa à serra. Certa vez, uma rapariga de Colares, curiosa das artes antigas, quis aprender o segredo. Uma velha curandeira levou-a à mata e mostrou-lhe a erva. — “Cresce onde o sol nunca vence”, disse. E apontou para um lugar onde sete sombras, vindas de pedras, troncos e saliências, se cruzavam como dedos escuros a tocar o chão. A rapariga, impaciente, colheu a planta sem pedir permissão. A velha empalideceu. Naquela noite, quando regressava a casa pela estrada da Pena, a lua cheia surgiu por trás das nuvens — e a rapariga viu sete sombras caminhar ao seu lado. Sete. Não seis. Não oito. Sete. Sombras finas, alongadas, sem rosto. Seguiam-na em silêncio, imitando os passos dela, como se a tivessem adotado. A rapariga correu. Correu até casa e fechou portas e janelas. Mas as sombras, dizem, ficaram com ela. Nunca a tocaram, nunca lhe fizeram mal, mas iam onde ela ia. Passaram noites junto à sua cama, sentadas na parede, à espera. E assim viveu muitos anos, acompanhada por aquelas presenças invisíveis, que só ela e alguns sensíveis da serra conseguiam ver. Alguns acreditavam que foram guardiões enviados para protegê-la; outros diziam que eram sombras reclamando o que lhes tinha sido tomado sem permissão. Ainda hoje, os habitantes antigos avisam: “Na Serra de Sintra, há ervas que curam, ervas que encantam e ervas que chamam quem está no escuro.” A erva-das-sete-sombras é uma delas. Arranca-a sem respeito… e talvez tragas alguém contigo para casa. Fontes e referências culturais Embora a planta “erva-das-sete-sombras” seja um nome popular variável, a lenda apoia-se em:
Que planta é a erva das sete sombras?Artemisia vulgaris — a opção mais provável
A Artemisia vulgaris é, segundo a tradição popular e os registos etnográficos, a planta mais associada à bruxaria e aos rituais mágicos em Portugal. Porquê?
– Michel Giacometti, Arquivo Sonoro (registos de cura e proteção) – Manuel J. Gandra, Sintra Secreta (plantas mágicas da Serra de Sintra) Ruta graveolens — a arruda Em várias aldeias da zona de Sintra, a arruda era conhecida como “erva das sombras”. Porquê?
– Recolhas orais da Azóia e Colares Mentha suaveolens ou Mentha spicata — hortelã-da-serra Alguns informantes referiam-se às hortelãs que crescem em zonas húmidas e sombrias da serra como “sete sombras”. Porquê?
– Estudos de etnobotânica sintrense (Museu de Sintra)
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Dizem os antigos que a nogueira é uma árvore poderosa, mas perigosa. No Norte e nas Beiras, ninguém dorme ao seu pé, nem deixa o gado descansar debaixo da sombra — sobretudo nas noites de luar.
A lenda conta que, quando o relógio marca a meia-noite, as bruxas juntam-se debaixo das grandes nogueiras, em clareiras escondidas, para fazer os seus trabalhos. Vêm dos montes e vales, vestidas de negro, com ervas presas no cabelo e ramos secos de arruda, alfazema e beladona nas mãos. Mas a árvore não é escolhida por acaso. A nogueira, dizem, é uma árvore com dois mundos: as raízes fincam-se nas profundezas da terra, onde vivem espíritos antigos; a copa ergue-se ao céu, onde voam as almas livres. Por isso é o portal perfeito. Numa aldeia de Trás-os-Montes, os mais velhos juravam que, em noites de São João, quando o fogo purifica e a terra respira, as bruxas dançavam à roda da nogueira mais velha do lugar — uma árvore tão larga que três homens não conseguiam abraçar o tronco. O chão ficava coberto de sombras em movimento, e quem tivesse coragem de espreitar escondido no mato, via luzinhas a girar — como brasas soltas. Eram as “alminhas de lume”, que as bruxas chamavam com cânticos antigos, numa língua que já ninguém sabe. Conta-se que um rapaz novo quis provar que era valente. Esperou pela meia-noite, levou uma pedra de sal no bolso — porque o sal protege — e escondeu-se atrás de uns fetos. Quando a lua ficou no alto, o vento calou-se, e a nogueira começou a tremer, embora não houvesse brisa. Então elas apareceram. Não tinham rosto. Só sombras longas, como se a lua tivesse moldado figuras a partir das folhas. Dançavam em roda, tocando o chão com os pés nus, e o tronco da árvore parecia pulsar, como se tivesse coração. O rapaz ficou petrificado, sem saber se aquilo era sonho ou verdade. Quando tentou levantar-se, uma das sombras virou-se devagar para o lugar onde ele estava escondido — e o rapaz sentiu o sangue gelar. Foi então que se lembrou do sal. Deitou a mão ao bolso, atirou três grãos para o chão — “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” — como a avó lhe ensinara. No mesmo instante, o círculo desfez-se. As sombras desapareceram, o vento voltou a soprar, e a nogueira ficou quieta, como se nada tivesse acontecido. Na manhã seguinte, os aldeões encontraram o rapaz desmaiado junto ao tronco, com o sal espalhado no chão. Quando acordou, nunca mais falou do que viu. Desde esse dia, na aldeia ninguém passou a dormir à sombra da nogueira. E até hoje, quem conhece as histórias antigas diz: debaixo da nogueira, nem o homem nem o gado devem dormir, porque a árvore guarda mistérios, e à meia-noite pode acordar. Por isso há quem diga que a nogueira é árvore de poder — boa para proteger, mas perigosa para desafiar. E quando passam por uma nogueira muito antiga, ainda se benzem baixinho, porque há árvores que lembram aquilo que a terra não esquece. Referências culturais e etnográficas Esta lenda existe em várias versões regionais:
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